26 de maio de 2024

LIÇÕES DO CELULAR E DA TESOURA

Recentemente vivi duas experiências que me fizeram refletir e por consequência muito me ensinaram. Julgo tratar-se de aprendizado positivo, que permite revisão de vida e crescimento. Daí, não me parece justo retê-lo, guardá-lo só comigo. Preciso, então, colocá-lo em comum. É o que faço a seguir.

A primeira experiência foi a aquisição de um celular digital (até então eu fazia uso de um aparelho tradicional). Qual foi o resultado e anormalidade? Foi precisamente encontrar-me “perdido” nos primeiros dias do novo uso. Vi-me em alguns instantes num estado de aborrecimento e certo arrependimento. Aí, imaginava que não devia ter trocado de celular. Com o anterior eu não tinha dificuldade, já estava acostumado. E com esse tipo de sentimento eu esquecia a superioridade em vantagens e possibilidades da nova máquina…

Em segundo lugar, passei pela experiência da tesoura. Habituei-me através de muitos anos de uso, a cortar minhas unhas com um unhex (ou “trinco”, popularmente falando). Um dia desses, fora de casa, precisei fazer reparo nas unhas dos pés. Procurei se o colega que me hospedava tinha um “trinco”. Ele só dispunha de uma pequena tesoura. Eu aceitei o disponível, porém com certa desconfiança. E o motivo desta penso que ao leitor parece óbvio: o costume com o “trinco” deixava-me na incerteza de que a tesoura resolvesse… Foi, contudo, algo tranquilo; deu inteiramente certo.

 Conclusão e ensino das experiências descritas é que onovo nos desconcerta e assusta. Tendemos,por comodidade e para fugir do incerto, a permanecer no já conhecido e seguro. E tal atitude não fica restrita apenas a certas ações e campos da vida. Trata-se de uma reação instintiva do nosso universo psicológico. E se projeta, com maior ou menor intensidade, em tudo que é situação nova diante da qual nos encontramos. Visando favorecer revisão e mudança de atitude do leitor sensível e aberto, recorro a seguir a dois exemplos.

Penso, em primeiro lugar, nos costumes quanto aos bancos dos templos religiosos.Em geral, temos lugar escolhido e fixo onde sentamos. Tal prática tem por resultado dificultar qualquer deslocamento proposto. Ainda que tal deslocamento tenha em vista melhorar a qualidade do envolvimento, da interação e confraternização dos participantes de uma celebração, ele sempre será olhado com desconfiança. Sempre, inicialmente, enfrentará resistência. Apego e fixação a um lugar, por tanto, podem dificultar a descoberta de modos e jeitos mais bonitos e mais evangélicos de se incluir e participar.

Outra realidade que envolve estruturação e fixação de concepções e comportamentos é a das opções pastorais, dentro do mundo religioso ou das Igrejas. Nessa realidade, há quem faça parte de diferentes correntes de fé e de teologia. Uma se intitula de progressista, libertadora e popular. Outra se define(ou é definida) por conservadora, tradicional…

E aí, uma vez estabelecidas as devidas distinções de estilos e de opções, como tais correntes se relacionam? Como olham e entendem uma a outra? Que avaliação cada corrente faz de si mesma? Existe auto crítica? Existe reconhecimento de valores, mas também de imperfeições próprias? Contribuições da corrente contrária são vistas e admitidas? As diferenças são acolhidas numa perspectiva de complementaridade?

Ou na verdade prevalecem a força do costume e os condicionamentos psicológicos? E aí, quais as consequências reais? Será entender concepções e posições próprias como verdades perfeitas e irretocáveis? Será encarar a corrente contrária sempre como um tipo de ameaça? Será, então, viver numa postura de auto defesa? Será, afinal, viver numa tensão que rouba energia, desperdiça potenciais e impede uma pastoral de melhor qualidade?

Fixar-se inarredavelmente, portanto, numa visão e prática de vida pode nos trazer graves riscos. Pode nos impedir a descoberta de outros horizontes mais vastos e melhor produtivos. Foi o que constatei a partir do meu novo celular e da tesoura que substituiu meu velho “trinco”. Ao expor e compartilhar minhas experiências e as muitas interrogações que elas me possibilitaram, espero ajudar no exame e retomada de postura de outras pessoas.

Mudança, definitivamente, não é algo simples e fácil. Estruturas mentais não se refazem a passe de mágica. Mas não é de todo impossível. Vale a pena tentar. Só não faz tentativa de mudança quem tira algum tipo de proveito com a condição de vida na qual está habituado. Em casos assim, em que se busca proveito pessoal, o não mudar torna-se uma escolha, algo proposital…

Para facilitar a auto avaliação de quem o desejar, pode-se perguntar: Quais as fixações e hábitos de minha vida? Busco,com eles, algum tipo de proveito pessoal?

(Pe. Aldenor – Mons. Tabosa/CE – 19.10.16)