26 de maio de 2024

UM SONHO COM POLÍTICOS DENUNCIADOS NA LAVA JATO

UM SONHO COM POLÍTICOS DENUNCIADOS NA LAVA JATO

(Pe. Aldenor Claudino de Oliveira)

Hoje tive um sonho. Já era madrugada, quase ao amanhecer do dia. O mesmo envolveu um fato extraordinário, algo novo e incomum, quando imaginamos a conduta costumeiramente fingida e dissimulada das pessoas humanas. Meu sonho foi povoado por muitos e destacados personagens da cena política e jurídica brasileira. Entre eles, conforme me consta na lembrança, estavam: Aécio Neves; José Serra; Fernando Henrique Cardoso; Geraldo Alkmin; Renan Calheiros; Romero Jucá; Michel Temer; Lula; Jacques Wagner; Gilmar Mendes; Fernando Pimentel; Moreira Franco; Eliseu Padilha; Vital do Rego…

No proceder dos citados personagens está o inesperado. O que ocorre? Eles são todos convocados à Brasília. A iniciativa é do presidente do Senado Federal, Renan Calheiros. E ocorre após a publicação do conteúdo da “delação” de um dos diretores da construtora Odebrecht. Na tal delação, como acompanhou-se pela imprensa, os referidos políticos são todos citados.

Atendendo o chamado de Calheiros e em seu gabinete, no Senado, todos colocam-se ao redor de uma grande e confortável mesa. O senador presidente expõe seu pensamento e propósito. Do que me lembro ele expressa:

– Sei que os senhores ficarão surpresos e talvez aborrecidos com o que me brotará dos lábios. Mas estou convencido de que devo lhes falar. Gostaria muito que concordassem comigo. Não sei se o farão. Porém peço que me escutem. Como sabemos, estamos todos citados na operação Lava Jato. Também sabemos que contra nós não se está violando o 8º mandamento da Lei de Deus. Não estamos sendo vítimas de calúnia. Nós praticamos “caixa dois”; nós cometemos ilícitos. Trata-se de uma cultura política que se firmou e se alastrou. É assim em todo Brasil. É assim nas várias esferas de poder, do nível municipal ao federal. A promiscuidade entre o público e o privado é um fato. Sei que para ser político é preciso ser ator. E nós temos sido bons atores até aqui. Mas tal estratégia não está funcionando mais. Ninguém mais acredita em nosso “repudio com veemência”, diante de cada nova revelação de delatores contra a gente. A sociedade inteira, como nós próprios, sabe que se trata de um chavão ensaiado. Já é perceptível que o único efeito alcançado é o de sermos ridicularizados e enojados por todos. E toda essa rejeição que enfrentamos tem um agravante: A estratégia de tentar isentar-se de culpa apontando a culpa de adversários. Também não funciona mais. As pessoas já se convenceram de que nós somos todos iguais. Considerando tudo que acabo de expor eu quero fazer-lhes uma proposta. É que convoquemos uma entrevista coletiva. Nela, nós confessaremos a verdade, assumiremos o que todos já sabem. Será loucura? Um suicídio político? Tenho certeza que não! Será, na verdade, uma demonstração de grandeza humana. Esconder erro é errar duas vezes. Admitir que se errou, ao contrário, é meio de purificação e de cura moral. Suicídio político, na verdade, ocorrerá se continuarmos fingindo, mentindo, portanto. O povo, que já percebeu nossos truques falaciosos, vai acabar nos banindo da vida política nacional. Jesus ensina que a verdade liberta. Pois com ela nós iremos recuperar a credibilidade e aí poderemos continuar como participantes da atividade partidária…

Quando Renan faz uma pausa em sua fala, para minha surpresa e admiração, todos reagem de forma simultânea e aprovativa… E Lula se apressa em dizer:

– Não pode haver maior lucidez que a de Renan. Eu concordo 100% com ele. Admito que digamos à Nação tudo que praticamos de ilegal; pediremos perdão; também pediremos uma nova chance. E nos comprometeremos a trabalhar por leis capazes de frear nossos instintos gananciosos e nossa procura por vantagens de tipo familiar ou exclusivamente partidária.

Lula mal termina suas palavras, já dois outros sinalizam querer falar. São eles Michel Temer e Fernando Henrique. Renan cede-lhes espaço e eles, como num movimento ensaiado, falam ao mesmo tempo:

– Nós também concordamos com tudo! E só assim entraremos em comunhão com o Natal de Jesus Cristo. Ele, além de ensinar que só a verdade liberta, ensinou que poder e autoridade devem traduzir-se em serviço. Não devem ser meios de autopromoção e dominação.

Eu, que no sonho estou como expectador, sinto um misto de alegria e surpresa. Aí penso com meus botões:

– Mas não dizem que FHC é ateu? E que Temer frequenta rituais de culto a Satanás?

Estou ainda a administrar meu espanto e já ocorre outra novidade. Os demais convidados de Renan irrompem numa salva de palmas, sinalizando sua aprovação às falas manifestadas.

Renan, dispensando assessores e sem nenhuma perca de tempo, liga para as editorias dos principais canais de televisão do Brasil… Como num passe de mágica comparecem todos à sala de imprensa do Senado Federal. E para a mesma sala dirigem-se o senador Calheiros e seus companheiros.

Repórteres e cinegrafistas estão a postos. O grupo das autoridades coloca-se num semicírculo, por traz de Renan, que se põe um passo à frente. Os da retaguarda seguram nas mãos uns dos outros. Renan volta-se para eles e num breve instante cruzam os olhares. Após leve aceno das cabeças, como numa reverência mútua, Renan vira-se de novo para os jornalistas. E verbaliza:

– Digno povo do Brasil, caminhamos para reviver e celebrar mais um Natal de Jesus Cristo. Nós, políticos e homens públicos que aqui estamos e agora entramos em suas casas através da televisão, temos algo a lhes dizer, uma confissão e um pedido a fazer.  Será nossa oportunidade de sair da fantasia anual, em que dizemos “Feliz Natal”, mas nada muda em nós nem ao nosso redor. Agora queremos uma vivência verdadeira de comunhão com Jesus Cristo. Vocês, povo do Brasil e telespectadores, conhecem a narrativa bíblica sobre Zaqueu. Ele era um cobrador de impostos, que no desempenho desonesto da profissão acumulou grande riqueza. Um dia, porém, conhecendo Jesus e tocado por seu projeto de vida, Zaqueu decide mudar. Sabemos os gestos concretos que Zaqueu adotou: Dar metade de seus bens aos pobres; e devolver quatro vezes mais aquilo que roubou dos outros. Pois nós, como Zaqueu, reconhecemos e confessamos perante vocês as nossas fraudes. Fizemos alianças oportunistas; criamos leis de conveniências, para favorecer grandes grupos financeiros; buscamos e extraímos sentenças judiciais parciais… Tudo para crescimento e sustentação de nossos projetos de poder. Pois que a justiça se faça, que nossos bens sejam apreendidos, e tudo que ilegalmente juntamos se restitua aos cofres públicos. E aos senhores e senhoras do povo, aos que deixamos sem teto e sem pão; sem trabalho e sem digna assistência à saúde; sem educação de qualidade, sem tantos outros direitos; a vocês pedimos perdão! E nos comprometemos a consumir o resto dos nossos dias e das nossas energias, frágeis e fugazes que são, a lutar por justiça social; e a combater toda forma de corrupção na vida pública brasileira.

Ainda em meu sonho, tão logo Renan conclui a confissão dos seus pecados e dos que com ele estão, eu visualizo instantaneamente lares de milhões de pessoas. Todas elas, diante de seus televisores noticiando em caráter extraordinário, estão também misturando alegria e comoção; elas aplaudem e choram ao mesmo tempo…

Como é comum a todo sonho o meu também chegou ao fim. Acordo um tanto  comovido com tudo que presenciei. E logo sou tomado por um sentimento de chateação, por me dar conta que a realidade não mudou e que eu apenas fizera uma surpreendente viajem nas asas do mental e do imaginário. Para não me frustrar nem me desesperar, porém, convido os que tomarem conhecimento do meu sonho para que façamos pressão e oração. Às custas destas ações o inacreditável poderá virar realidade. E aí nossos acusados na Lava Jato poderão parar suas dissimulações; poderão dormir em paz; e o Brasil poderá respirar ares de justiça e verdade…

Monsenhor Tabosa/CE 14.12.2016