15 de julho de 2024

CARTA COMPROMISSO

Às missionárias e aos missionários das Igrejas locais,
Encontramo-nos em Manaus de 10 a 15 de novembro de 2023, vindos de todas as regiões do
Brasil para celebrar o 5º Congresso Missionário Nacional. A grave estiagem que acometeu a
Amazônia nesses tempos de mudanças climáticas, não impediu o transbordar do entusiasmo,
da generosidade e do compromisso de sua Igreja que nos acolheu em suas casas, com todas
as flores e com todos os sabores de suas famílias.
Por causa de Jesus e de seu Evangelho, estávamos presentes no Congresso, expressando o
ardor e o testemunho missionário da Igreja no Brasil, como delegadas e delegados de nossas
Igrejas locais, para fomentar um novo impulso, novas luzes e novas motivações na caminhada
missionária para além de todas as fronteiras. Nossa assembleia foi composta por mais de
800 pessoas: 40 bispos, 150 consagrados e consagradas, 110 presbíteros, 10 diáconos, 30
seminaristas, 300 leigos e leigas, representantes de povos originários e 200 voluntários e
voluntárias das equipes de Manaus.
Reunimo-nos para refletir sobre o tema: “Ide! Da Igreja local aos confins do mundo”, com o lema:
“Corações ardentes, pés a caminho”. Papa Francisco, na mensagem que nos enviou, se alegrou com
a escolha desse lema e nos convidou a responder com alegria ao Evangelho que recebemos: “o
encanto pela Boa Nova que vos alcançou não vos deixe acomodados em uma Igreja fechada em si
mesma e amedrontada, mas vos impulsione com a força do Espírito Santo a ir além-fronteiras”.
A missão é o paradigma, o eixo que sustenta e nutre toda a Igreja. Uma missão fundamentada
no diálogo recíproco, que possibilita incluir o estranho, as periferias, entrar na casa dos pobres,
escutar seus clamores, sem preconceito, crítica, arrogância ou rejeição, desde a lógica diferente
de Deus. Uma missão que inclui a todos, e que gera espaços de escuta e comunhão.
Uma Igreja sinodal em missão até os confins do mundo que cruza fronteiras e vive a
ministerialidade e a corresponsabilidade, supera o clericalismo. Uma Igreja samaritana se
concretiza no amor àqueles que vivem nas periferias geográficas e existenciais. Uma Igreja
para todos e todas. Uma Igreja encarnada, decolonial, não de conquista, mas pautada por uma
missão de encontro e sem medo do diferente.
Conscientes de nossa missão evangelizadora, após dias de escuta e diálogo, reconhecemos a
força missionária da Igreja do Brasil caracterizada por inúmeras iniciativas desenvolvidas em todo
o território. Reafirmamos a relevância e a atualidade do Programa Missionário Nacional (PMN),
cujo processo de construção iniciou no 4º Congresso Missionário Nacional, em Recife (2017).
Desde a Igreja de Manaus, indicamos algumas pistas para a ampliação e a dinamização das
quatro prioridades do Programa Missionário Nacional, a saber:

  • Formação Missionária: sejam desenvolvidos itinerários formativos permanentes e
    processuais que tenham como premissas a interculturalidade; os clamores da realidade;
    o cuidado com a Casa Comum; a formação integral, inclusiva, acessível, decolonial e
    ecossistêmica; a espiritualidade missionária; a sinodalidade. Sejam criadas estratégias
    formativas para todos os sujeitos eclesiais, em especial o laicato, os seminaristas e o
    CARTA COMPROMISSO
    clero. Seja fomentada uma formação voltada para o entendimento sobre os Conselhos
    Missionários em seus diversos níveis. Sejam fortalecidas e contempladas ações como:
    escolas diocesanas missionárias; cursos de missiologia (pós-graduação lato e stricto
    sensu); formações mediadas pela educação a distância; elaboração de novos materiais
    missionários com linguagens locais; semana missionária vocacional.
  • Animação Missionária: visa despertar uma espiritualidade missionária para que toda a
    vida se torne missão. É uma ação pastoral para o fortalecimento e a dinamização de todas
    as forças missionárias. Neste sentido, é imprescindível a implementação, organização e
    desenvolvimento dos Conselhos Missionários em nível regional, diocesano e paroquial, de
    modo a contribuir com os planos pastorais das igrejas locais. Salienta-se a necessidade
    de favorecer caminhos sinodais para que as Pontifícias Obras Missionárias realizem o seu
    serviço às igrejas locais no despertar da consciência ad gentes. A Campanha Missionária,
    como precioso instrumento de animação missionária, seja conhecida e dinamizada em
    todas as dioceses.
  • Missão Ad Gentes: reafirma-se o imperativo do compromisso da Igreja local com a
    missão universal da Igreja, para a consolidação de uma cultura missionária permeada pelo
    espírito da cooperação além-fronteiras até os confins do mundo. Indica-se a necessidade
    de que sejam elaboradas estratégias voltadas à sustentabilidade da missão ad gentes; ao
    acompanhamento na ida e no retorno dos missionários; à rearticulação dos projetos Igrejas
    irmãs. Percebe-se a urgência de estruturas que incentivem e assumam os compromissos
    inerentes ao envio do laicato missionário. Recomenda-se o Centro Cultural Missionário
    como referência para formação missionária ad gentes.
  • Compromisso profético-social: em profundo alinhamento com a Doutrina Social da Igreja,
    a atuação missionária seja desenvolvida levando em consideração as complexas e múltiplas
    vulnerabilidades presentes em nossas realidades. A missionariedade promova e defenda
    a vida no planeta, os direitos humanos, o diálogo interreligioso e intercultural, o combate
    a toda forma de racismo, com ênfase nas temáticas das migrações, dos povos originários,
    das comunidades tradicionais e da equidade de gênero. Com o intuito de deixarmo-nos
    interpelar pelas diversas conjunturas, reafirmamos nosso compromisso com as infâncias,
    adolescências e juventudes. De modo profético salientamos a necessidade de participação
    de cristãos leigos e leigas nos diversos espaços sociais e políticos, como estratégia que
    colabore na construção de uma sociedade justa e fraterna pautada pelos valores do Reino.
    Queremos, como os discípulos de Emaús, continuar tecendo caminhos de busca, de escuta e
    de transformação para que o Ressuscitado abra os nossos olhos, converta os nossos corações
    e nos impulsione para a missão permanente. Somos inspirados a reconhecê-Lo no cotidiano
    dos povos, em suas sabedorias, suas culturas, seus ritos, seus territórios e suas histórias.
    Pedimos a força do Espírito para sairmos ao encontro dos pobres e dos outros, inspirados
    pelo dom da vida dos mártires, servindo ao Reino de Deus com coração sem fronteiras e pés a
    caminho. Que Maria, Mãe da Amazônia, nos acompanhe em nossa saída missionária das Igrejas
    locais até os confins do mundo.
    Manaus/AM, 15 de novembro de 2023