15 de abril de 2024

PALAVRA DO PASTOR – MARÇO DE 2024

AMIZADE SOCIAL

Estamos em plena celebração do tempo quaresmal, sendo chamados à conversão pela Palavra de Deus,
pelos textos litúrgicos próprios deste tempo e pelas reflexões da CF 2024, que traz como tema a amizade
Social, com o lema: Somos Todos Irmãos. Nada mais bíblico do que isso.
Esta iluminação quaresmal é, também, inspirada na Encíclica do Papa Francisco, Fratelli Tutti (2020), na qual
nos lembra que Deus «criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e os
chamou a conviver entre si como irmãos» (5).
Naquele momento, o santo padre expressava o seu desejo de que aquela encíclica fosse uma humilde
contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros,
fôssemos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limitasse a
palavras. E convidava a todos homens e mulheres a sonharem como uma única humanidade, como
caminhantes da mesma carne humana… cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada
qual com a própria voz, mas todos irmãos. Eis aí o lema que a Igreja do Brasil nos coloca nesta CF 2024:
somos todos irmãos.
Francisco falava da tentação de uma cultura de erguimento de muros: no coração, e na terra, para impedir
este encontro com outras culturas, com outras pessoas. E quem levanta um muro, quem constrói um muro,
acabará escravo dentro dos muros que construiu, sem horizontes. Por isso, insistia nosso Papa: o
isolamento, não; a proximidade, sim. Cultura do confronto, não; cultura do encontro, sim».
Hoje, a humanidade se alimenta com sonhos de esplendor e grandeza, e acaba por comer distração,
fechamento e solidão; nós nos empanturramos de conexões, e perdemos o gosto da fraternidade.
Buscamos o resultado rápido e seguro, e encontramo-nos oprimidos pela impaciência e a ansiedade.
Prisioneiros da virtualidade, perdemos o gosto e o sabor da realidade. Quão verdadeiras e sábias as
palavras de Francisco!
Uma outra palavra que ressoou forte nesta encíclica é esta: ou nos salvamos todos ou não se salva
ninguém. A pobreza, a degradação, os sofrimentos dum lugar da terra são um silencioso terreno fértil de
problemas que, finalmente, afetarão todo o planeta. Por isso, a fraternidade universal e a amizade social
dentro de cada sociedade são dois polos inseparáveis e ambos essenciais.
A partir do «amor social», é possível avançar para uma civilização do amor a que todos somos chamados. A
caridade, que podemos também traduzir por amor social é uma «força capaz de suscitar novas vias para
enfrentar os problemas do mundo de hoje e renovar profundamente, desde o interior, as estruturas,
organizações sociais, ordenamentos jurídicos” (186)
Os heróis do futuro serão aqueles que souberem quebrar a lógica perversa de uma economia que mata e,
ultrapassando as conveniências pessoais, e se decidirem a favor de uma fraternidade universal. Queira
Deus que estes heróis se estejam gerando silenciosamente no coração da nossa sociedade.
Enquanto isso, sabemos que a desigualdade e a falta de desenvolvimento humano integral impedem que
se gere a paz. Na verdade, «sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra
encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar novas explosões de violência.
Somos chamados a amar a todos, sem exceção. Mas amar um opressor não significa consentir que
continue sendo opressor; nem o levar a pensar que é aceitável o que faz. Pelo contrário, amá-lo
corretamente é procurar, de várias maneiras, convencer que ele deixe de oprimir, tirar-lhe o poder que não
sabe usar e que o desfigura como ser humano. Perdoar não significa permitir que continue a espezinhar a
própria dignidade e a do outro e continue a fazer mal.
Nenhuma família, nenhum grupo de vizinhos ou uma etnia e menos ainda um país tem futuro, se o motor
que os une, congrega e cobre as diferenças é a vingança e o ódio… Assim não se ganha nada e, a longo
prazo, perde-se tudo.
Ó Deus, «prepare os nossos corações para o encontro com os irmãos independentemente das diferenças
de ideias, língua, cultura, religião; que unja todo o nosso ser com o óleo da sua misericórdia que cura as
feridas dos erros, das incompreensões, das controvérsias; dai-nos a vossa graça e nos envie, com
humildade e mansidão, pelas sendas desafiadoras, mas fecundas da busca da paz».